Era o início do terceiro século. O
Império Romano tinha se fortificado em toda a região do Mediterrâneo. A
sociedade gozava de estabilidade e privilégios — entre eles o de assistir aos
jogos realizados no anfiteatro. Este compunha-se de uma estrutura oval, com
algumas jaulas laterais para as feras, a arena no centro e um pequeno templo
debaixo da arena. Ali, os gladiadores pediam as bênçãos dos deuses romanos para
suas lutas, ao mesmo tempo em que os condenados pelo rei aguardavam sua
sentença. Ao redor da arena, havia uma espécie de arquibancada para o público
assistir confortavelmente aos espetáculos.
Naquela época, o imperador Sétimo
Severo baixou um edito segundo o qual todos deveriam oferecer sacrifícios aos
deuses romanos e ao próprio imperador. O infrator era sentenciado, juntamente
com outros criminosos.
Vívia Perpétua, uma jovem senhora da
nobreza, e sua empregada Felicidade eram cristãs. Aos 20 anos, grávida,
Perpétua foi condenada, juntamente com Felicidade e mais três cristãos, por
desobedecerem ao edito imperial. Em vão o pai de Perpétua tentou várias vezes
convencê-la de desistir da fé e sacrificar aos deuses. “O que será do seu
filho?”, o pai a advertiu, sem sucesso.
Assim, em 7 de março de 203, foi dado
o veredicto final: “Perpétua, Felicidade, Revocato, Secúndulo, Saturnino e
Saturo são condenados às bestas no Anfiteatro de Cartago”. Segundo a história,
Saturo não estava entre os condenados, mas voluntariamente compartilhou do
martírio de seus irmãos em Cristo. Perpétua havia feito um pedido especial a
Deus, e foi atendida: deu à luz no dia anterior à sua morte e uma amiga cristã
adotou seu pequeno filho.
Os condenados deveriam usar uma roupa
designada para o espetáculo. Cada roupa fazia menção a um deus romano, de modo
que o sentenciado era oferecido como sacrifício àquele deus. Perpétua e
Felicidade, e depois seus companheiros, se negaram a usar a “roupa festiva”,
como que num último fôlego de testemunho — nem mesmo sua morte se tornaria
oferenda para os deuses. Eles entraram na arena com pouquíssima roupa, mas com
um brilho e uma alegria de espírito humanamente inexplicáveis. Todos eles
tinham consciência de que sua morte seria um testemunho público importante para
o avanço da fé cristã. Felicidade dizia que seu martírio significava para ela não
a morte, mas um segundo batismo.
Os homens foram os primeiros a entrar
na arena. Dois deles deveriam passar por uma ponte com uma série de obstáculos,
entre os quais algumas feras, como leões e tigres, até que chegassem aos
gladiadores. Secúndulo morreu na prisão, antes mesmo de chegar à arena.
Saturnino foi decapitado e os outros dois morreram durante o espetáculo.
Por último, entraram a jovem senhora
e sua companheira. Para elas, foi designada uma bezerra, que investiu
primeiramente em Perpétua e em seguida avançou para Felicidade. Perpétua, após
recobrar a consciência, ajudou Felicidade a se levantar. Conta-se que escorria
leite daquela que amamentara apenas um dia seu filhinho recém-nascido. Elas
foram retiradas da arena feridas, para serem mortas pelos gladiadores. A
platéia estava exaltada. Queria mais, e exigiu que a morte fosse pública. Elas
então morreram na arena, pelas espadas dos gladiadores.
Esta história comovente certamente
nos lembra a passagem bíblica que diz: “Eles, pois, venceram [Satanás] por
causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e,
mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Segundo
Tertuliano, o sangue dos mártires é a semente da igreja. Com efeito, o sangue
de Perpétua, Felicidade e de seus irmãos em Cristo foi a semente da igreja no
Norte da África. Sua morte deveria ser um presente do imperador Severo para seu
filho César Geta. Mas foi muito mais um presente para a igreja.
Os poucos cristãos que vivem naquela
região felizmente não estão mais sob o jugo opressor romano. Mas precisam da
mesma ousadia e fé para “enxergar além do véu” e enfrentar os obstáculos de
oposição e perseguição a que ainda estão sujeitos hoje.
Nota: Por por Délnia Bastos. Artigo publicado na seção
“Deixem que elas mesmas falem” da Revista